
mínimo, enviaria suas aves para o sul até Porto Real, e
poderia bem atrever-se a mais.
Catelyn Stark não perdera tempo.
- Devemos partir de imediato. Vamos querer montarias
descansadas e provisões para a estrada. Quanto aos senhores,
saibam que têm a gratidão eterna da Casa Stark. Se algum
dos senhores quiser nos ajudar a guardar os cativos e levá-los
em segurança até Winterfell, prometo que serão bem
recompensados - e foi o suficiente, os tontos atiraram-se à
frente. Tyrion estudou-lhes as caras; seriam de fato bem
recompensados, jurara a si mesmo, mas talvez não
propriamente do modo que imaginavam.
Mas, mesmo enquanto o empurravam para fora, selando os
cavalos na chuva e atando-lhe as mãos com uma corda
grossa, Tyrion Lannister não estava realmente com medo.
Poderia ter apostado que não conseguiriam levá-lo até
Winterfell. Haveria cavaleiros no seu encalço em menos de
um dia, aves levantariam vôo, e certamente um dos senhores
do rio teria suficiente vontade de ganhar os favores de seu pai
para dar uma ajuda. Tyrion congratulava-se pela sua sutileza
quando alguém lhe puxara um capuz sobre os olhos e o subira
para uma sela,
Tinham partido em meio à chuva num duro galope, e não
demorou muito até que as coxas de Tyrion ficassem rígidas e
doídas e seu traseiro latejasse de dor. Mesmo depois de
estarem suficientemente afastados da estalagem para se
sentirem em segurança, e de Catelyn ter abrandado a marcha
até um trote, foi uma miserável viagem por terreno irregular,
piorada pela sua cegueira. Cada curva e volta o punha a
ponto de cair do cavalo. O capuz abafava os sons, e não
conseguia distinguir o que era dito à sua volta, e a chuva
encharcava o tecido, que lhe grudava no rosto, até que
mesmo respirar se tornara uma luta, A corda deixara seus
pulsos em carne viva, e parecia ficar mais apertada à medida
que a noite avançava. Preparava-me para me instalar em
frente de um fogo quente e uma ave assada, mas aquele
maldito cantor tinha de abrir a boca, pensava tristemente. O
maldito cantor viera com eles.
- Há uma grande canção por fazer a partir disto, e eu sou
aquele que a fará - dissera a Catelyn Stark quando anunciara
sua intenção de viajar para o norte com eles para ver como se
desenrolaria a "esplêndida aventura".
Tyrion gostaria de saber se o rapaz acharia a aventura assim
tão esplêndida quando os cavaleiros dos Lannister os
apanhassem.
A chuva já tinha enfim parado e a luz da alvorada já se
infiltrava através do pano molhado que tinha sobre os olhos
quando Catelyn Stark deu ordem para desmontar. Mãos
rudes o tiraram do cavalo, desataram-lhe os pulsos e
arrancaram-lhe o capuz da cabeça. Quando Tyrion viu a
estreita estrada pedregosa, os sopés das colinas que se
erguiam altas e selvagens por toda volta, e os picos
escarpados e cobertos de neve no horizonte longínquo, toda
sua esperança se evaporara num instante.
- Esta é a estrada de altitude - arquejara, olhando para a
Senhora Stark com olhos acusadores. - A estrada do leste, A
senhora disse que nos dirigíamos a Winterfell!
Catelyn Stark concedeu-lhe o mais tênue dos sorrisos.
- Em alto e bom som - ela concordou. - Não há dúvida de que
seus amigos seguirão esse caminho quando vierem em nosso
encalço. Desejo-lhes boa viagem.
Mesmo agora, muitos dias mais tarde, a recordação o enchia
de amarga raiva. Por toda a vida Tyrion se orgulhara de sua
astúcia, o único presente que os deuses se tinham dignado a
conceder-lhe e, no entanto, aquela sete vezes maldita loba
Catelyn Stark o sobrepujara durante todo o tempo. Saber
aquilo era mais humilhante que o simples fato de ter sido
raptado.
Pararam apenas o tempo suficiente para alimentar e dar de
beber aos cavalos, e puseram-se imediatamente a caminho.
Daquela vez, Tyrion foi poupado do capuz. Após a segunda
noite, deixaram de atar-lhe as mãos, e uma vez chegados às
alturas, já pouco se preocupavam em guardá-lo. Pareciam
não temer que fugisse. E por que haveriam de temer? Ali a
terra era dura e selvagem, e a estrada de altitude pouco
passava de um trilho pedregoso. Se fugisse, até onde chegaria,
só e sem provisões? Os gatos-das-sombras o veriam como uma
guloseima, e os clãs que habitavam os baluartes da montanha
eram salteadores e assassinos que não se dobravam a
nenhuma lei além da da espada.
Mas, apesar disso, a Stark os fez avançar de forma
implacável. Sabia para onde se dirigiam. Soubera desde o
momento em que lhe tinham arrancado o capuz. Aquelas
montanhas eram o domínio da Casa Arryn, e a viúva da
falecida Mão era uma Tully, irmã de Catelyn Stark... e nada
amiga dos Lannister. Tyrion conhecera vagamente a Senhora
Lysa durante os anos que ela passara em Porto Real, e não se
sentia ansioso por reatar o convívio.
Seus captores aglomeravam-se em torno de um riacho um
pouco mais à frente. Os cavalos tinham se enchido da água
fria como gelo e pastavam feixes de mato castanho que
crescia em fendas na rocha. Jyck e Morrec estavam muito
juntos, carrancudos e infelizes. Mohor erguia-se sobre eles,
apoiado na lança e usando